
Como se tornará evidente mais adiante, este tipo de abordagem
se aplica ao caso unidimensional, ou seja, quando o índice
de refração varia em apenas uma direção.
Como exemplo desta situação, tomemos uma mistura não
homogênea de água (n=1.333)
e álcool (n=1.361), que apresenta
uma variação de índice de refração
como indicada na Fig. 2.2.

Fig. 2.2 - Variação do índice de refração
numa mistura não homogênea de água e álcool
(nág=1.333 e nal=1.361).
Vamos ainda supor que o raio de luz penetra nesta mistura a uma altura
y0, localizada na região de
transição água-álcool, propagando-se ao
longo do eixo z. Esta situação está esquematizada
na Fig. 2.3. Como a variação de n é pequena e
ocorre numa região relativamente grande (da ordem de um centímetro),
admitiremos que o desvio sofrido pelo feixe é pequeno. Assim,
o raio deslocar-se-á pouco da altura y0 e o índice de
refração pode ser expandido em série de Taylor,
de acordo com:
onde n0 e dn/dy]y0 são respectivamente o índice de refração
e seu gradiente na altura y0. A seguir, vamos utilizar a lei de Snell, que já
era conhecida experimentalmente em 1621. Para isto, vamos imaginar
a região de transição água-álcool
dividida num grande número de lâminas planas e paralelas,
de espessuras tão finas quanto se queira, de forma que em cada
uma delas o índice de refração é praticamente
constante. As lâminas são paralelas ao eixo z e portanto
perpendiculares à direção em que n varia. O paralelismo
entre as faces de cada lâmina é motivado pelo fato de
n variar apenas ao longo de y.

Fig. 2.3 - Desvio de um raio de luz que incide na mistura água-álcool
a uma altura y0. A magnitude do desvio foi exagerada para melhor visualização.
Podemos aplicar a lei de Snell na interface que separa duas lâminas
consecutivas i e i-1: ni-1 sen
qi-1= ni
sen qi,
onde qi
é o ângulo que o raio faz com o eixo y. Como o índice
de refração é constante em cada uma das lâminas,
o raio se propaga em linha reta até a próxima interface,
onde chega com o ângulo de incidência i. Novamente aplicamos
a lei de Snell: ni sen qi = ni+1 sen qi+1. Desta forma, o produto n sen mantém-se constante
conforme o raio se propaga pelas diferentes lâminas. Tomando
o limite em que as espessuras das lâminas tendem a zero, obtemos
a lei de Snell generalizada:
n(y) cosq = constante |
(2.2) |
que estabelece que o ângulo q varia continuamente com y, conforme n varia. Podemos ainda
trabalhar com o ângulo b(y) que o
raio faz com as faces das lâminas. Levando em conta que b é o ângulo complementar de q e que o raio inicialmente propaga-se ao longo do eixo
z (b(y0)= 0), a lei de Snell generalizada fica:
O raio descreve uma trajetória curva dada por y =
y(z), cuja inclinação é:
Usando as expressões de cos b e n(y) dadas pelas equações (2.3) e (2.1),
temos:
onde o termo quadrático em dn/dy foi desprezado. A eq. (2.5)
pode facilmente ser integrada resultando em:
que representa a trajetória parabólica do raio dentro
do meio. No capítulo final do livro apresentamos uma demonstração
na qual se mede o desvio de um raio de luz laser ao percorrer uma
certa distância dentro do meio. Isto possibilita a medida do
gradiente do índice de refração como função
da altura y. Devido ao fato deste gradiente não ser constante,
observamos a focalização (ou desfocalização)
da luz do laser, como descrito a seguir.
Consideremos um feixe de luz laser com diâmetro
y, de tal forma que a parte inferior do raio penetra no meio a
uma altura y0 e a parte superior
em y0 +
y. Vamos ainda considerar
y suficientemente pequeno tal que o índice de refração
seja aproximadamente o mesmo (n0)
ao longo de todo o perfil transversal do feixe. A uma distância
z no interior do meio, a parte inferior do feixe satisfará
a eq. (2.6), enquanto que a parte superior executará uma trajetória
descrita por:
e assim, o diâmetro do feixe, F = y'-y, como função
da distância de propagação, fica:
Desta forma, o desvio sofrido pelo feixe está ligado ao gradiente
de n, enquanto que seu diâmetro fornece a derivada segunda de
n. De acordo com a Fig. 2.2, próximo da água o feixe
será desfocalizado e na região mais próxima do
álcool haverá focalização. Voltaremos
a discutir este assunto quando apresentarmos a demonstração
do capítulo final.
Sergio Carlos Zilio
|