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O início do século XIX presenciou o ressurgimento da teoria
ondulatória. Entre 1801 e 1803, Thomas Young (1773-1829) propôs
o princípio da superposição e com ele explicou
o fenômeno de interferência em filmes finos. Devido ao
peso científico de Newton e suas idéias sobre a teoria
corpuscular, Young foi bastante criticado pela comunidade científica
inglesa devido a estes trabalhos. Desconhecendo os avanços
realizados por Young, já que a difusão de conhecimentos
era extremamente lenta naquela época, Augustin Jean Fresnel
(1788-1827) propôs, 13 anos mais tarde, uma formulação
matemática dos princípios de Huygens e da interferência.
Na sua concepção, a propagação de uma
onda primária era vista como uma sucessão de ondas esféricas
secundárias que interferiam para refazer a onda primária
num instante subsequente. Esta proposição, chamada de
princípio de Huygens-Fresnel, também recebeu muitas
críticas da comunidade científica francesa, principalmente
por parte de Laplace e Biot. Entretanto, do ponto de vista matemático,
a teoria de Fresnel explicava uma série de fenômenos,
tais como os padrões de difração produzidos por
vários tipos de obstáculos e a propagação
retilínea em meios isotrópicos, que era a principal
objeção que Newton fazia à teoria ondulatória
na época. Pouco tempo depois, Gustav Robert Kirchhoff (1824-1887)
mostrou que o princípio de Huygens-Fresnel era consequência
direta da equação de ondas e estabeleceu uma formulação
rigorosa para o fenômeno de difração, como veremos
no Cap. 9. Ao saber que a idéia original do princípio
da superposição devia-se a Young, Fresnel ficou decepcionado,
porém os dois acabaram tornando-se amigos e eventuais colaboradores.
Fresnel também colaborou com Dominique François Jean
Arago (1786-1853), principalmente em assuntos ligados à polarização
da luz.
Nos primórdios da teoria ondulatória, considerava-se
que a luz era uma onda longitudinal, similar à uma onda sonora
propagando-se num meio tênue, porém com alta constante
elástica, chamado éter. Tal meio precisava ser suficientemente
tênue para não perturbar o movimento dos corpos e a constante
de mola deveria ser elevada para sustentar as oscilações
de alta frequência da luz. Por outro lado, a dupla refração
da calcita já havia sido observada por Huygens, que notou que
a luz tem "dois lados opostos", atribuidos à presença
do meio cristalino. Posteriormente, Étienne Louis Malus (1775-1812)
observou que os "dois lados opostos" também se manifestavam
na reflexão e que não eram inerentes a um meio cristalino,
mas sim, uma propriedade intrínseca da luz. Fresnel e Arago
realizaram uma série de experimentos visando observar seu efeito
no processo de interferência, mas os resultados não podiam
ser explicados com o conceito de onda longitudinal aceito até
então. Por vários anos, Fresnel, Arago e Young tentaram
explicar os resultados observados, até que finalmente Young
propôs que a luz era na verdade composta por ondas transversais
(duas polarizações), como as que existem numa corda.
A partir daí, Fresnel utilizou um modelo mecanicista de propagação
de ondas transversais para deduzir suas famosas equações
de reflexão e transmissão numa interface dielétrica,
para as duas polarizações.
Em 1825 a teoria ondulatória já era bastante aceita
enquanto que a teoria corpuscular tinha poucos defensores. Até
meados do século, foram realizadas várias medidas terrestres
da velocidade da luz. Em 1849, Armand Hippolyte Louis Fizeau (1819-1896)
utilizou uma roda dentada rotatória (chopper) para gerar pulsos
de luz e um espelho distante que refletia os raios de volta para a
roda. Variando a velocidade angular desta, variava-se o período
entre duas aberturas consecutivas e era possível fazer com
que os pulsos passassem ou fossem bloqueados pela roda. A partir das
equações do movimento retilíneo uniforme, Fizeau
determinou a velocidade da luz como sendo 315.300 km/s. Outro conjunto
de medidas visando a determinação da velocidade da luz
foi realizado por Jean Bernard Léon Foucault (1819-1868), com
a utilização de um espelho rotatório desenvolvido
em 1834 por Charles Wheastone (da ponte de Wheastone) para a medida
da duração de uma descarga elétrica. Arago havia
proposto o uso deste dispositivo para a determinação
da velocidade da luz em meios densos, mas não conseguiu realizar
o experimento. Foucault, entretanto logrou êxito nesta tarefa,
e em 1850 verificou que a velocidade de propagação da
luz na água era menor que no ar. Isto era contrário
ao previsto pela teoria corpuscular de Newton e reforçou ainda
mais a teoria ondulatória.
Sergio Carlos Zilio
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