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No tratamento que empregamos para deduzir as equações
da lente supomos a aproximação paraxial, na qual senq
e tgq são aproximados pelo argumento
q. Esta é uma teoria chamada de primeira ordem. Entretanto,
quando um raio passa pela borda da lente, ele é focalizado
com um ângulo relativamente grande, de forma que a aproximação
paraxial pode não ser boa. Neste caso, mesmo que a luz seja
monocromática, de forma que a aberração cromática
pode ser ignorada, haverá aberrações de outro
tipo. Para entendermos estas aberrações devemos tomar
o termo cúbico na expansão do senq e assim passaremos
a ter uma teoria de 3a ordem. As diferenças entre esta teoria
e a linear são conhecidas como aberrações primárias
e são em número de cinco (aberração esférica,
coma, astigmatismo, curvatura de campo e distorção).
Elas foram estudadas em detalhe por Ludwig von Seidel (1821-1896)
por volta de 1850 e por isso levam o nome de aberrações
de Seidel. A seguir, descrevemos sucintamente alguns destes tipos
de aberrações.

No caso de uma lente simples, o foco efetivo varia com a distância
h que o raio incidente entra na lente, de acordo com a Fig. 3.9. Esta
variação é chamada de aberração
esférica. Para os raios paraxiais (h
0) a eq. (3.12) se aplica e o foco é chamado de foco paraxial.

Fig 3.9 - Aberração esférica produzida por uma
lente simples.
Os raios afastados
do eixo óptico de uma distância h serão focalizados
num outro ponto, chamado de foco periférico, ou marginal, que
dista
do foco paraxial,
com k sendo dado por:
A aberração esférica será mínima
quando a razão entre os raios de curvatura da lente satisfazem:
Esta fórmula só é válida quando o objeto
estiver muito afastado da lente (s
).
Uma maneira que se usa atualmente para minimizar a aberração
esférica é pela construção de lentes cujas
superfícies não sejam esféricas (lentes asféricas).
As lentes asféricas não são encontradas com facilidade
(e são caras). Na prática, o que se pode fazer para
minimizar este tipo de aberração, é fazer com
que os ângulos de entrada e saída dos raios na lente
sejam os mais próximos possíveis. A Fig. 3.10 mostra
a maneira de se minimizar a aberração esférica
numa lente plano-convexa.


Fig. 3.10 - Aberração esférica de uma lente
plano-convexa em duas situações diferentes.

A aberração comática ou simplesmente coma é
uma aberração monocromática primária que
degrada a imagem e que tem sua origem no fato de que os planos principais
só podem ser considerados como planos na aproximação
paraxial. Fora desta aproximação, os planos principais
são, na verdade, superfícies curvas. A distância
focal efetiva e, portanto, a magnificação transversal,
será diferente para raios atravessando diferentes regiões
fora do eixo da lente, como mostra a Fig. 3.11 para uma fonte pontual.
Quando mT diminui para os raios mais externos (como na figura) temos
coma negativo e se, mT aumenta, temos coma positivo. Esta aberração
apresenta certa analogia com a aberração esférica,
pois ambas resultam da impossibilidade de raios paraxiais e marginais
convergirem em um mesmo ponto depois de atravessarem a lente. Entretanto,
elas se diferenciam na forma da imagem produzida, já que um
ponto com aberração esférica resultará
numa forma circular e com coma, numa forma de cometa, como mostrado
no canto inferior direito da Fig. 3.11.

Fig. 3.11 - Exemplo de coma negativo.
A aberração comática depende bastante da posição
do objeto e da geometria da lente; entretanto, podemos constatar da
Fig. 3.11, que a colocação de uma íris que permita
apenas a passagem dos raios pelo centro da lente, diminui bastante
este tipo de aberração. Como no caso da aberração
esférica, a coma pode ser minimizada ao se escolher adequadamente
os raios de curvaturas da lente. Felizmente, a combinação
de raios de curvaturas para minimizar a coma é bastante parecida
com a combinação para minimizar a aberração
esférica.

O astigmatismo, do mesmo modo que a coma, afeta a imagem de um ponto
qualquer situado fora do eixo óptico da lente. Considere um
feixe de luz colimada incidindo com um ângulo a sobre uma lente.
O plano perpendicular ao eixo em torno do qual a lente foi rodada,
é chamado de plano meridional enquanto que o plano que contém
este eixo é chamado de plano sagital (Fig. 3.12). Obviamente,
a simetria dos raios incidente é diferente nestes dois planos
e, assim, é de se esperar que as distâncias focais também
o sejam. Realmente, encontra-se que no plano meridional o foco é
dado por fm = fcosa enquanto que no plano
sagital fs = f/cosa. Para evitarmos este
tipo de aberração, devemos posicionar as lentes de uma
montagem experimental sempre perpendiculares aos feixes de luz.

Fig. 3.12 - Os planos meridional e sagital.
Sergio Carlos Zilio
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