
Levando em conta a natureza ondulatória da luz, que será
discutida no próximo capítulo, podemos explicar como
se processa o efeito de focalização produzido por uma
lente fina de índice de refração n. Consideremos
uma onda colimada que se propaga para a direita e incide sobre uma
lente compreendida entre dois planos muito próximos como apresentado
na Fig. 3.7. Esta onda “plana”, que analisaremos mais
detalhadamente na seção 4.3, é caracterizada
por uma fase espacial dada por f = kz,
onde z é direção de propagação
e k = 2p/l. Ao atravessar a lente, haverá uma mudança
de fase da onda, que depende da distância r, relativa ao centro
da lente. Tal mudança é dada por Df
= k0D(r), onde k0é o
vetor de propagação no vácuo e D(r) é o caminho óptico, já definido
quando tratamos do princípio de Fermat. Com base na Fig. 3.7,
e denominando de d a espessura da lente, encontramos que o caminho
óptico entre os planos 1 e 2 é dado por:
D(r) = n0 (d1+d2) + n (d-d1-d) = nd-(n-n0) (d1+d2) |
(3.23) |
onde n0é o índice de
refração do ar, que doravante tomaremos como unitário
(n0=1). As distâncias d1 e d2 entre a lente e
os planos 1 e 2 podem ser calculadas através de argumentos
geométricos, levando em conta que cada superfície da
lente tem formato esférico. Assim, para a primeira superfície,
R12
= x2 + y2 + z2 = r2 + (r1-d1)2 |
(3.24) |
Fig. 3.7 – Geometria utilizada para o cálculo da mudança
de fase
de
uma onda plana após a passagem por uma lente fina.
onde
e a coordenada transversal a z. Expandindo o quadrado e supondo que d1é
muito menor que R1 e r, obtemos:
Procedendo de forma análoga para a superfície de raio
R2 temos:
de forma que o caminho óptico é dado por:
onde a equação do fabricante de lente, eq. (3.12), foi
utilizada nesta última passagem. Como consequência, a
fase da onda sobre o plano 2 é:
onde no primeiro termo da direita subtraimos a quantidade k0d,
que é a fase que a onda ganharia se não houvesse lente.
S(r,z) é a função eikonal, que foi introduzida
na eq. (2.38). Tomando o gradiente de S(r,z) em coordenadas cilíndricas
podemos encontrar o versor û, paralelo a
,
que define a direção de propagação da
onda. Assim, de acordo com a eq. (2.41) temos:
mostrando que a luz convergirá para o ponto focal F, pois tgq
= r/f. Em outras palavras, a ação da lente é
a de produzir uma curvatura na frente de onda. A fase diminui radialmente
sobre o plano 2 e para termos uma superfície equifase teremos
que caminhar para a direita conforme r aumenta. Assim o termo k0z compensa o decréscimo radial da fase.
Sergio Carlos Zilio
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