
Neste capítulo daremos sequência ao estudo de óptica
geométrica, fazendo uma “revisão” da propagação
dos raios através de sistemas ópticos, com ênfase
em lentes. Para isto adotaremos um tratamento matemático na
forma matricial. Este tipo de formalismo é de muita importância
para a descrição da propagação de feixes
gaussianos e cálculos de cavidades ressonantes para lasers,
como veremos posteriormente. É também adequado para
descrever sistemas que incluem muitos elementos ópticos, já
que o efeito do conjunto pode ser encontrado através de multiplicação
de matrizes.
Vamos levar em conta apenas os raios paraxiais confinados ao redor do
eixo óptico (q muito pequeno). Considere
a situação mostrada na Fig. 3.1. Podemos supor que,
na aproximação paraxial, existe uma relação
linear entre as características geométricas dos feixes
de entrada e saida do sistema óptico. Desta forma, tomando
Yi como a altura e qi como o ângulo
do raio incidente no sistema óptico, e Ye e qe como os parâmetros do feixe emergente, podemos
escrever um conjunto de equações envolvendo estas grandezas:
que pode ser colocada na forma matricial:
ou esquematicamente, na notação de Dirac utilizada na
mecânica quântica, |
= S |
.
Para um sistema óptico composto de vários elementos,
basta apenas fazer a multiplicação de suas matrizes,
respeitando a ordem com que os raios incidem nos elementos. Assim,
|
= nSn-1....S2S1|
.
Como exemplo, vamos encontrar a matriz S para uma lente positiva (convergente)
de distância focal f. A Fig. 3.2 mostra os raios principais
para uma lente convergente. Note que quando o raio estiver descendo
dy/dz<0 e portanto q é negativo.

Fig. 3.1 - Raios incidentes e emergentes de um sistema óptico.
Na aproximação paraxial, dy/dz = tgq
q.

Fig. 3.2 - Traçado de raios para uma lente convergente de
distância focal f.
O corresponde ao objeto (tamanho d) e O’ à imagem (tamanho
d’).
Vamos usar a aproximação paraxial, na qual d e d’
são muito menores que a distância focal f. Da Fig. 3.2
vemos que o raio (1) incidente sobre a lente é descrito pela
altura Yi(1) = d’ e pelo ângulo
qi(1) = arctg d’/f
d’/f, enquanto que o raio emergente é caracterizado
por Ye(1)= d’ e qe(1) = 0. Logo, poderemos montar
a seguinte equação matricial:
que nos leva ao sistema de equações:
Para o raio (2), temos Yi(2) = -d, qi(2) = 0, Ye(2) = -d e qe(2) = arctg d/f
d/f. Portanto,
de onde se obtém:
Substituindo estes valores na eq. (3.4) encontramos S12 = 0 e S22 = 1, de forma que a matriz
da lente positiva fica:
Para uma lente negativa (divergente) basta que se troque o sinal de
f, como será demonstrado no problema 3.3. A determinação
das matrizes de vários sistemas ópticos e suas combinações
será deixada para a seção de exercícios.
O procedimento a ser adotado na solução destes problemas
é análogo ao que usamos para a lente positiva. Um fato
que merece destaque é que as matrizes que representam os elementos
ópticos, a exemplo da matriz da lente convergente, são
unitárias. Logo, quando temos um sistema óptico composto
de vários elementos, sua matriz também é unitária,
pois é a resultante de um produto de matrizes unitárias.
A seguir, vamos introduzir alguns conceitos envolvendo lentes finas
e espessas.
Sergio Carlos Zilio
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