|

Ao tratarmos o tópico óptica de raios, também
conhecido como óptica geométrica, não levamos
em consideração o caráter ondulatório
da luz, nem sua polarização. Nestas condições,
efeitos tais como difração e interferência não
se evidenciam. Como veremos adiante, isto corresponde ao caso em que
o comprimento de onda tende a zero ( l
0), que é análogo ao limite clássico que se obtém
da mecânica quântica ao tomarmos h
0 . Este raciocínio foi utilizado por Schrödinger na obtenção
da sua famosa equação, como mostraremos no final do
capítulo.
Entende-se como meio homogêneo aquele no qual o índice
de refração não depende da posição,
sendo portanto constante. Note que o meio pode ser simultaneamente
homogêneo e anisotrópico, caso comum em cristais, para
os quais o índice de refração tem valores diferenciados
para distintas direções de propagação
da luz. Já no meio não homogêneo, o índice
de refração é dependente da posição,
em geral devido às flutuações de densidade, temperatura,
ou composição química do material.
Este capítulo inicia-se com uma breve exposição
das propriedades de propagação de raios em meios homogêneos,
com ênfase na sua refração ao atingir uma interface
dielétrica plana. Este é um tópico que será
revisto no
Cap. 6, depois que abordarmos os
conceitos de polarização da luz e condições
de contorno do campo eletromagnético, que nos levarão
às equações de Fresnel. Em seguida, trataremos
de uma situação bem mais interessante, a propagação
de luz em meios não homogêneos. Mostraremos que a trajetória
dos raios de luz podem descrever uma trajetória curva, diferentemente
dos meios homogêneos, onde as trajetórias dos raios são
retilíneas. Serão apresentados quatro tratamentos teóricos
para este tipo de problema. Em particular, faremos, no final do capítulo,
uma analogia entre a mecânica clássica e a óptica
geométrica. Esta analogia será importante para a obtenção
da equação de Schrödinger.
A área de óptica é um campo de estudos fascinante.
De maneira simplificada, podemos dizer que ela é o ramo da
Física que estuda a propagação da luz e sua interação
com a matéria. Em muitas áreas da ciência e tecnologia,
o entendimento de determinados conceitos pode ser difícil porque
seus efeitos não são facilmente visualizados. Na óptica,
entretanto, o simples uso de um laser permite a visualização
de um dado efeito como função de vários parâmetros,
facilitando o aprendizado. Isto se deve principalmente à coerência,
monocromaticidade e colimação da luz proveniente deste
instrumento, que permitem a observação de fenômenos
tais como interferência e difração, nos quais
a natureza ondulatória da luz se manifesta claramente. Entretanto,
para se chegar ao desenvolvimento deste dispositivo, e de vários
outros que são importantes no nosso cotidiano, um longo caminho
foi percorrido e este percurso gerou um histórico bastante
rico. Alguns aspectos que merecem destaque estão ligados às
idéias sobre a natureza da luz e aos caminhos paralelos que
a óptica e o eletromagnetismo trilharam durante séculos.
Para se entender um pouco estes fatos, faremos, no transcorrer desta
seção, uma breve revisão histórica do
desenvolvimento dos conceitos principais ligados à óptica.
Um outro fato importante para o qual deve-se chamar a atenção
refere-se à analogia existente entre a óptica física
e a mecânica quântica. No estado estacionário,
ambas são descritas pela mesma equação de ondas
e assim, vários fenômenos que se observa num laboratório
de óptica podem ser usados para um melhor entendimento da mecânica
quântica. Apenas como exemplo, o princípio da incerteza
de Heisenberg pode ser verificado num experimento de difração
de luz por uma fenda, como veremos no Cap. 9. Similarmente, outros
fenômenos nos quais a matéria comporta-se de forma ondulatória
encontra seu análogo na óptica física. Desta
forma, o aprendizado da mecânica quântica torna-se mais
simples com o auxílio da óptica.
Sergio Carlos Zilio
|
|