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Antes do século XVII existia pouco embasamento teórico
para os fenômenos ópticos observados. Eram conhecidos
alguns elementos tais como lentes e espelhos, mas a teoria descrevendo
seu princípio de funcionamento não estava sedimentada.
A primeira grande evolução da óptica ocorreu
durante o século XVII, quando houve um desenvolvimento significativo
da sua formulação matemática, o que possibilitou
a explicação dos fenômenos observados até
então. Nas duas primeiras décadas daquele século
foram introduzidos os sistemas ópticos que combinam duas lentes.
O primeiro deles, o telescópio refrativo, foi patenteado em
1608 por Hans Lippershey (1587-1619), um holandês fabricante
de óculos. Seu dispositivo utilizava uma ocular côncava,
conforme esquematizado na Fig. 1.1. Ouvindo falar desta invenção,
Galileo Galilei (1564-1642) construiu seu próprio telescópio
e em 1610 descobriu as luas de Júpiter, os anéis de
Saturno e a rotação do Sol. Estas descobertas popularizaram
este instrumento óptico e a configuração que
utiliza a ocular côncava leva hoje o nome de telescópio
Galileano. O telescópio com ocular convexa, também mostrado
na Fig. 1.1, foi introduzido por Johannes Kepler (1571-1630), que
o utilizou para fazer importantes observações astronômicas,
que se tornaram conhecidas como as leis de Kepler.

Fig. 1.1 - Tipos de telescópios refrativos
O segundo tipo de sistema óptico que combina duas lentes é
o microscópio. Ele foi inventado provavelmente pelo holandês
Zacharias Janssen (1588-1632) por volta de 1609, na versão
possuindo ocular côncava. É interessante notar que a
invenção deste instrumento ocorreu praticamente ao mesmo
tempo que a do telescópio. O microscópio com ocular
convexa foi introduzido logo a seguir por Francisco Fontana (1580-1656).
Além do desenvolvimento tecnológico destes instrumentos
refrativos de duas lentes, começou-se neste período
a elaboração da formulação matemática
que permite o cálculo da propagação dos raios.
Em seu livro Dioptrice, de 1611, Kepler apresenta a lei de refração
para pequenos ângulos, que estabelece que os ângulos de
incidência e refração são proporcionais.
Isto possibilitou o tratamento matemático de sistemas ópticos
simples, compostos de lentes finas. Neste mesmo trabalho, ele introduz
de forma pioneira, o conceito de reflexão total interna. Apesar
deste sucesso inicial, podemos dizer que a maior contribuição
para o desenvolvimento da óptica nesta primeira metade do século
XVII deveu-se a Willebrord Snell (1591-1626), que em 1621 introduziu
a lei da refração (lei dos senos). O conhecimento desta
lei deu origem à óptica aplicada moderna, permitindo
o cálculo de sistemas ópticos mais complexos, não
tratáveis pela lei de refração para pequenos
ângulos, introduzida por Kepler. A lei de Snell foi deduzida
pela primeira vez em 1637, por René Descartes (1596-1650),
que lançou mão de uma formulação matemática
baseada em ondas de pressão num meio elástico. Aparentemente,
esta foi a primeira vez em que a luz foi tratada como algum tipo de
onda.
Uma
outra dedução interessante da lei de Snell foi realizada
por Pierre de Fermat (1601-1665) em 1657, utilizando o princípio
do tempo mínimo. Anteriormente a Fermat, Heron, de Alexandria,
havia introdu-zido o princípio da menor distância, que
previa que os raios andariam sempre em linha reta, que é a
menor distância entre dois pontos. Com o princípio de
Fermat, existe a possibilidade do raio executar uma trajetória
curva se o meio não for homogêneo. Abordaremos este ponto
com maiores detalhes no próximo capítulo, apresentando
inclusive outras formulações matemáticas, além
do princípio de Fermat.
Sergio Carlos Zilio
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